Paula Telo Alves
 

PIGS que te pariu!


Paula Telo Alves

Jornalista, portuguesa, 39 anos, há 12 no Luxemburgo

O discurso do poder, tal como o da propaganda, é feito de imagens. Recorre a eufemismos para dourar a pílula: a “ajuda financeira” a Portugal e à Grécia não é, evidentemente, uma “ajuda” em nenhum dicionário do mundo, e muito menos uma ajuda humanitária, como o termo pode levar a crer, mas sim um empréstimo com juros usurários e obrigações pesadíssimas para os cidadãos. Idem para “flexibilidade laboral”, a evocar agilidade, destreza, desenvoltura, tudo coisas modernas e desejáveis, pelo menos na aparência, mas que na verdade se traduzem em precariedade e insegurança laboral.
Convertidas em coisas simpáticas, as políticas que se escondem por de trás destas palavras não provocam protestos nem revoltas. As palavras têm um efeito anestesiante, agravado pela sua repetição constante. A imprensa e os *media* retomam de forma acrítica o discurso do poder, repetindo à exaustão aquilo a que o jornalista português José Vítor Malheiros chama de “léxico autorizado”. Neste jogo de espelhos deformantes com que manipula as palavras, o poder também recorre a disfemismos. PIGS (porcos em inglês) é um dos mais infames. O acrónimo, pretensamente económico, refere-se a Portugal, Itália, Grécia e Espanha (“Spain” em inglês), países que têm em comum, segundo os seus detractores, problemas económicos semelhantes. Um termo altamente pejorativo que a imprensa internacional continua a repetir, e que cria uma narrativa segundo a qual estes países se comportam como “Feios, Porcos e Maus” na arena dos mercados, e continuarão por isso a viver na lama e na exclusão. Que dois destes países, Grécia e Itália, sejam o berço da civilização europeia, e que Portugal e Espanha tenham sido os precursores da economia globalizada, na época dos Descobrimentos, não cabe nestes rótulos prontos-a-servir. A palavra PIGS já traz em si a sua própria definição, a sua própria narrativa: é impossível ter boa opinião destes quatro países depois de um acrónimo destes. Um conceito armadilhado impede-nos de pensar, destrói qualquer hipótese de neutralidade. As palavras envenenam.
Sempre que leio o termo PIGS, apetece-me ser mal-educada. No Norte de Portugal, de onde eu venho – um lugar onde as pessoas falam com uma franqueza desconcertante -, não levavam menos do que um “Puta que te pariu” (literalmente, “Va chez la putain qui a accouché de toi”). “PIGS que te pariu” (“PIGS qui t’ont acouché”), mais do que devolver o insulto, reintroduz alguma verdade factual e histórica no discurso da propaganda…

Le discours du pouvoir, tout comme celui de la propagande, est construit à base d’images. Il a recours à des euphémismes pour enjoliver la pilule : l’ « aide financière » au Portugal et à la Grèce n’est bien évidemment pas une « aide » dans aucun dictionnaire au monde, et moins encore une aide humanitaire, comme le terme peut laisser croire, mais bien un prêt alloué à des taux usuriers et avec des obligations très lourdes pour les citoyens. Idem pour la « flexibilité du travail », un terme qui évoque de l’agilité, de l’habileté, de la désinvolture, rien que des images modernes et désirables, mais qui en réalité se traduisent par de la précarité et de l’insécurité dans le monde du travail.

Transformées en énoncés sympathiques, les politiques qui se cachent derrière ces mots ne provoquent ni protestations ni révoltes. Les mots ont un effet anesthésiant, aggravé par leur répétition permanente. La presse et les médias reprennent sans aucun esprit critique le discours du pouvoir, répétant de façon exhaustive ce que le journaliste portugais José Vítor Malheiros a qualifié de « lexique autorisé ». Dans ce jeu de miroirs déformants avec lesquels il manipule les mots, le pouvoir a également recours à des dysphémismes. PIGS (cochons en anglais) en est l’un des exemples les plus infâmes. Cet acronyme, prétendument économique, fait référence au Portugal, à l’Italie, à la Grèce et à l’Espagne (« Spain » en anglais), des pays qui, d’après leurs détracteurs, ont en commun des difficultés économiques similaires. Il s’agit là d’une expression fortement péjorative que la presse internationale ne cesse de répéter et qui crée une narration suivant laquelle ces pays se comportent comme des « affreux, sales et méchants » dans l’arène des marchés, ce qui fait qu’ils continueront à vivre dans la fange et l’exclusion. Ces qualificatifs prêts-à-servir ignorent totalement le fait que deux de ces pays, la Grèce et l’Italie, ont été le berceau de la civilisation européenne, et que le Portugal et l’Espagne ont été les pionniers de l’économie globalisée à l’époque des Découvertes. Le mot PIGS porte en lui-même sa propre définition, son propre récit : il est impossible d’avoir en estime ces quatre pays après qu’ils aient été affublés d’un pareil acronyme. Un concept piégé nous empêche de penser, détruit toute velléité de neutralité. Les mots sont un poison.

A chaque fois que je lis le terme PIGS, l’envie me prend d’être mal-élevée. Dans le Nord du Portugal, région dont je proviens, les gens ont l’habitude de parler avec une franchise déconcertante et cette histoire ne mérite pas moins qu’un « Puta que te pariu » (littéralement « Va chez la putain qui a accouché de toi ». « PIGS que te pariu » (« PIGS qui ont accouché de toi »), non seulement rétribue l’insulte, mais réintroduit une certaine vérité factuelle et historique dans le discours de la propagande …

Comments

  1. Pedro says

    … Triste ainda saber que esse modelo económico só serve os bancos e seus acionistas, envolvidos numa trapalhice camaradista com o BEI, cujos juros iniciais são “ridículos” para depois dar aos PIGS “os restos” da sua própria desgraça.